sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

3.1 - debaixo do viaduto






percurso: google maps

história | presente

por muitos anos, em seus baixios, o viaduto de santa tereza abrigou depósitos de equipamentos sucateados da prefeitura de belo horizonte, construções aleatórias, estacionamento de veículos e moradias informais de adolescentes.

debaixo do viaduto - 1948

debaixo do viaduto – anos 1990



em abril de 1999, após a sua reinauguração, e fazendo parte do projeto "rua da bahia viva", com a ideia de transformar a área de três mil metros quadrados debaixo do viaduto em espaço cultural, foi construída uma estrutura batizada de arco das artes, e a secretaria municipal de cultura abriu inscrições para apresentações no local.  

viaduto santa tereza - projeto de recuperação 1989 |bar após conclusão das obras - 1999
 fonte: trevisan, 2012, p. 63.

desde então, palco de diversas expressões artísticas promovidas por meios oficiais ou fruto de iniciativas independentes, o espaço segue se afirmando a cada dia culturalmente mais relevante em bh. prova disso são os diversos movimentos surgidos ou desenvolvidos ali.

baixio do viaduto de santa tereza - 2017
fonte: divulgação cmbh


informações urbanísticas e arquitetônicas relevantes

dentro desse intrincado de movimentos que atuam na rede complexa da cidade, outros fatos vão se fazendo relevantes para demonstrar a abrangência política e social do viaduto no contexto de belo horizonte. é assim que, no início de 2013, foi anunciada mais uma revitalização do viaduto de santa tereza. 

fonte: jornal metro | 20-03-2013

a obra incluiria a recuperação da estrutura e o revestimento original, com pó de pedra. a promessa era transformá-lo em um circuito de esportes radicais, dentro do projeto "corredor cultural da praça da estação".

fonte: divulgação pbh

no entanto críticas foram dirigidas na época ao então prefeito, no sentido de se pautar por medidas urbanísticas de cunho 'higienista' e voltadas ao investimento empresarial. fato que poderia acarretar a expulsão desses atores locais em função de atrair setores mais abastados da população, ou seja, gentrificação. 


como reação, uma grande inquietação se instalou em meio aos movimentos culturais. artistas, ativistas, militantes e pessoas interessadas nas dinâmicas da cidade começaram a se articular e reunir, na busca de respostas e mais transparência por parte do poder municipal.

fonte: ouviaduto

na sequência, em 08 de fevereiro de 2014, esses diversos grupos, que tinham o espaço do viaduto como ponto central de encontro, ocuparam o baixio do local e retiraram os tapumes que impendiam a visualização das obras realizadas pela prefeitura, em uma ação nomeada de "viaduto ocupado".


segundo dados da página oficial do hoje denominado movimento viaduto livre, foram sete dias de ocupação onde, em meio às ruínas, deu-se uma forte construção política e popular no baixo do viaduto, desenvolvida ao longo dos anos.


em 12 de janeiro de 2016, o site brasil de fato trazia a matéria "ano novo, obra velha: viaduto santa tereza segue sem completar reformas em bh". nela afirmava que entrava ano e a obra do viaduto santa tereza não saía.

fonte: http://transite.fafich.ufmg.br/viaduto-de-dois-gumes/



fonte: https://www.brasildefato.com.br/node/33868/ | foto: rafaella dotta

mais de um ano depois de duelos de mc's, edições do quarteirão do soul  e outras diversas formas de apropriação, em 26 de janeiro de 2017, o site da bhaz, outro integrante do movimento viaduto ocupado, dizia que, em ato divulgado por meio do facebook, mais de mil pessoas já haviam confirmado presença para no sábado, 28 de janeiro, inaugurar à força uma área de skate construída no local.


o uso real do espaço

em termos de uso, tem-se que as diversas formas de manifestação cultural que passaram a ocorrer em seus baixios, após o surgimento do duelo de mc's, em agosto de 2007 e reforçadas a partir de 2010, pelo efeito irradiador das praias da estação, colocaram o viaduto como um dos principais polos de discussão política de belo horizonte. 




um ponto que chama a atenção é a multiplicidade de grupos e a convivência entre eles. na maioria das vezes, percebida de forma pacífica, mas também com o registro de momentos de embate e atritos.

fonte: https://perfilbhz.wordpress.com/page/3/


na imagem a seguir, evento fechado acontecendo na serraria souza pinto – minas tchê | feira de tradições gaúchas - e quarteirão do soul – evento tradicional às sextas à noite no baixio do viaduto.




de todos os locais, áreas e equipamentos do baixo centro de belo horizonte, talvez seja também o mais democrático no sentido da inclusão e do pertencimento. 



fatos, personagens marcantes, curiosidades

em 31 de outubro de 2007, o blog oficial do duelo de mc's de belo horizonte anunciava que a edição do dia 02 de novembro próximo aconteceria "tradicionalmente, na praça da estação, centro de bh, a partir das 20h30." trazia, no entanto, uma ressalva: "caso chova, o evento será transferido para debaixo do viaduto santa tereza, que fica a menos de dois quarteirões da praça da estação, no sentido parque municipal." 

 http://duelodemcs.blogspot.com.br/2007/10/

desse modo, por força das intempéries, um dos pontos mais significativos de bh, passaria literalmente a abrigar um dos movimentos mais representativos e legítimos do cenário cultural recente da cidade.

fonte: duelo de mcs por leonardo cezario


duelo de mc's - 2017
fonte: soubh 2017

o duelo de mc's faz parte de um coletivo que junto à família de rua tem como foco a promoção da cultura hip hop, do skate e daqueles que respiram a rua cotidianamente. a cada edição se enfrentam oito ou dezesseis mc’s - dois a dois, que com versos improvisados e acompanhados por bases de rap desenvolvem a “batalha”, tendo 45 segundos para “atacar” ou “responder”. o vencedor, ao final, é determinado pelo voto da plateia.



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percurso: google maps




rua da bahia


parada 3 - viaduto de santa tereza














percurso: google maps



história | presente

com projeto do engenheiro emílio baumgart, a construção recebeu o nome de viaduto artur bernardes.

projeto viaduto de santa tereza

teve a pedra fundamental lançada em 05 de agosto de 1926 e foi custeado pela prefeitura municipal e pela central do brasil. 


construção dos arcos do viaduto de santa tereza - 1928


fonte: arquivo público da cidade de belo horizonte


inaugurado em setembro de 1929, faz a ligação do centro comercial da cidade à região leste, incluindo bairros tradicionais como floresta e santa tereza, passando sobre o ribeirão arrudas e os trilhos da central do brasil.



fonte: arquivo público da cidade de belo horizonte


com 390 metros de extensão e 13 metros de largura, tem função relevante no sistema viário da capital. local onde passava a linha do extinto bonde elétrico de belo horizonte apelidado de "pão de forma" por ser fechado com um vagão de trem ferroviário.


1929


viaduto de santa tereza – anos 1930
fonte: http://www.pu3yka.com.br/homepage/brasil/minasgerais/belohorizonte/
belohorizonte2/belohorizonte-02.htm

  
viaduto de santa tereza emenda com av. tocantins  (hoje assis chateaubriand) – década de 1950
fonte: ouviaduto.tmblr.com/


postal do viaduto de santa tereza - 1958

postal do viaduto de santa tereza visto da rua sapucaí - 1970
fonte: ouviaduto.tmblr.com/




 em 1983, já em estado de deterioração, teve o veto do tráfego de trânsito pesado. foi tombado em 1988 pelo instituto estadual do patrimônio histórico e artístico de minas gerais – iepha-mg e tornou-se parte integrante do conjunto arquitetônico da praça rui barbosa.

foto: br olhares


em 1995, em um estado de conservação bastante precário, a denúncia de um símbolo maltratado da cidade.

jornal estado de minas | 04-06-1995




informações urbanísticas e arquitetônicas relevantes

o maior projeto de restauração arquitetônica e estrutural para o local, foi encomendado ao escritório schimidt arquitetura e urbanismo em 1993 e previa a construção de um espaço cultural, de recreação e lazer com diversos atrativos: salão de uso múltiplo, bares, café, palcos de arena, pista de dança, áreas para feiras e exposições, largo dos poetas, fonte, esculturas, posto policial, sanitários e centro de apoio para a limpeza urbana.

em 1996, com outro tombamento pelo conselho deliberativo do patrimônio cultural do município de belo horizonte, tendo chegado a um grande processo de degradação e deterioração, apresentava pichação em seus arcos, guarda-corpos e revestimentos danificados, luminárias quebradas e escadaria usada como banheiro público. dentro desse contexto, e alinhada a diversas outras ações para o entorno, engendrou-se uma proposta de intervenção apoiada  na recuperação de sua estrutura, na restauração de seus elementos arquitetônicos . esta seria a 36ª reforma da história, sendo que já haviam ocorrido 60 restaurações de estrutura desde a sua inauguração.

jornal estado de minas | 27-09-1997



menos de 24 horas após a entrega das obras, em dia de 10 de abril de 1999, foi registrada a primeira pichação nos arcos do viaduto

jornal hoje em dia | 10-04-1999

é importante ressaltar aqui,  que já existia um uso desse espaço antes da reforma. pessoas que o vivenciavam e ao entorno de maneiras diversas, sejam nas barracas do programa abc no baixio do viaduto ou em uma oficina mecânica que funcionava na serraria souza pinto.




nesse caso, onde se percebe a não inclusão popular nos processos de decisão, falta de respeito às tradições do entorno social e aos usos reais dos espaços, surgem ações encaradas por alguns como gesto de vandalismo e depredação e por outros como uma intenção genuína de (re)apropriação do espaço urbano. o fato é que a partir dali as duas coisas passaram a acontecer de forma efetiva.

 viaduto de santa tereza - 2013


desde a sua inauguração, a iluminação do viaduto de santa tereza é um dos equipamentos que mais chamou a atenção, por utilizar 37 postes ornamentais de dois focos com vidros estriados claros e que imitavam lampiões. talvez justamente por isso, sejam os que mais sofrem com as interações. cúpulas e lâmpadas quebradas, mastros tortos e cobertos por adesivos de propaganda e pichações foram retratados na época e são percebidos ainda hoje. 




o uso real do espaço

dez anos depois, na comemoração dos seus oitenta anos em 2009, o jornal estado de minas trazia uma matéria intitulada "um oitentão abandonado", que pedia maior respeito dos usuários e maior atenção do poder público. 

 jornal estado de minas | 11-1-2009

aos principais usuários de então, pessoas em situação de rua e sem-teto, se somam cada vez mais grupos artísticos diversos, que ocupam os espaços e demarcam territórios com todos os desdobramentos, causas e efeitos. 



eventos diversos são constantemente promovidos no local, gerando ora a interação de públicos distintos, mas muitas vezes a segregação. um dos que gerou frutos foi o fechamento do viaduto dentro da virada cultural de belo horizonte de 2015.


fonte: http://malhastensionadas.com.br/folio/cenografia-da-virada-cultural-bh/

em 14 de janeiro de 2016, o jornal estado de minas anunciava "novos tempos para o viaduto santa tereza", informando o seu fechamento aos domingos para atividades culturais, de lazer e esportivas dentro do festival cidade viva, que intentava a retirada de carros, motos e ônibus, substituindo-os por equipamentos de recreação. 

fonte: divulgação PBH

informação divulgada pela fundação municipal de cultura (fmc) relata que a ideia surgiu durante a virada cultural, quando o viaduto foi um dos pontos de ocupação de shows que mobilizaram a cidade durante 24 horas. organizado por iniciativa privada, via lei federal de incentivo à cultura, e apoio da prefeitura de belo horizonte/fundação municipal de cultura (pbh/fmc), ofereceu atividades com parque de brinquedos infláveis, oficinas culturais e de construção de brinquedos, pintura artística, percussão, tai chi chuan e yoga, bares, tendas para áreas de sombra, mesas com ombrelone e cadeiras de praia. 



o espaço contava ainda com o suporte de foodtrucks e foodbikes, tendência do momento, em que a tradicional comida rápida de rua ganhava nova roupagem com ares de pratos e bebidas gourmet, mas também, com o intuito de oferecer uma gastronomia democrática, segundo a organização, havia as tradicionais barraquinhas. com uma programação cultural prometida "para todas as tribos e idades", juntava rock, jazz, black music e soul, bossa nova, mpb e samba de raiz, além de aulão de zumba e axé. o projeto aconteceu ao longo do ano de 2016, e mesmo com todo esse viés múltiplo, a sensação, durante visita da pesquisadora ao local é que nem todos foram convidados para a festa.

fonte: jornal o tempo 24-01-2016

em maio de 2016, o 13º festival internacional de teatro de belo horizonte foi encerrado com um evento chamado de 'último ato', no viaduto santa tereza. o local se transformou em praia e teve diversas atividades, variedade cultural e apresentações. a plateia era diversificada, com famílias empurrando carrinhos de bebê, jovens dançando, roqueiros, funkeiros e românticos.

fonte: jornal estado de minas – 29-05-2016 | foto: edésio ferreira/em/da press



ainda em julho de 2016, mais uma virada cultural de belo horizonte ocupou o viaduto.



foto: http://malhastensionadas.com.br/folio/cenografia-da-virada-cultural-bh/


em 2018, durante o carnaval de Belo horizonte, o viaduto foi um dos locais constantemente ocupados por muitos foliões.

bloco corte devassa no viaduto santa tereza - carnaval 2018
fonte: https://blogdoarcanjo.blogosfera.uol.com.br/2018/02/15/bateu-saudade-3
0-fotos-do-carnaval-de-bh-2018-por-nereu-jr/ | foto: nereu jr/uol

fatos, personagens marcantes, curiosidades

em seu livro o desatino da rapaziada, werneck (2012) lembra que a altura dos arcos do viaduto de santa tereza aumenta na memória dos que foram moços na época e andaram por eles. segundo consta, para pedro nava, eles possuíam uma altura vertiginosa, enquanto fernando sabino estimava 50 metros na primeira edição de encontro marcado e reduziu para 30, na segunda. 

os 14 metros reais do ponto mais alto do arco ao nível do trilho, que muitos anos antes já haviam sido palco para as travessuras de carlos drummond de andrade e a sua turma, fazem parte do ritual de passagem de gerações literárias de minas e é uma das principais referências urbanas da cidade de belo horizonte. 

se os poetas andavam firmes pelas alturas, os bondes ...


queda de um bonde – anos 1930
 fonte: ouviaduto.tmblr.com/

fonte: http://www.otempo.com.br/hotsites/bh-120-anos



no viaduto!